Mulher na Janela

escreverei com sangue nas malhas desse planeta o que não pude dizer em vida : fui analfabeta na chegada & na saída (Iara Maria)

1.7.09

poeminha bem antigo...







entre a substância




& o verbo






: o nó.

19.5.09

Criança da minha Vida



O trajeto da luz

Quero uma paz de menino brincante
plantando-me as unhas febris
mordendo-me a maçã do rosto.

Uma paz de menino brilhante
com a porta do céu aberta
para pingar-me estrelas nos sonhos
janelas no mundo.

Um menino vibrante
correndo de velocípede
pelo espaço sideral.




Aprendiz de jardineiro

No quarto infantil
é que plantava doiduras:

gritinhos correndo pelas paredes
ursinhos atirados ao chão
histórias contadas entre desenhos e lençóis.

Quando for colheita de sonhos,
há de abrir-se a porta do quarto
sua luz fugirá pelas janelas
e um pedaço de Deus
tombará bem diante de seu sorriso
com dentinhos recém-nascidos.

Apanhará do chão um punhado de luz abissal
e as coisas tomarão seu lugar no coração dos homens
a tempo de serem outra vez pássaros
lembranças
e cachorros latindo.




Paisagem

Para teus olhos, não há adjetivos.

Só esse imenso gato mourisco
atravessando os muros da casa
e os sonhos do menino.





Dos sonhos pequeninos

O menino usará fraldas
até amanhecer a infância última
e saber o lugar certo de tudo.

Mas quando anoitecem seus olhos,
esquece as demências dos grandes
e sonha com biqueiras chuvosas
tardes molhadas
copo de canudinho espalhando cachoeira.

Acorda xixi.

Menino é sempre menino.





Pequeno e terno

Dentro de mim,
é claro o mundo.

Meus olhos
(de estranha curvatura)
lhe enxergam grande grande.

Um mito
matinando meu sentimento
com água, sonho e luzes muito fortes.



A espera do dia

Vou esperar sua tarde chegar
com bicicletas, desenhos e lagartixas.

Enquanto isso, sua manhã me emociona
me faz mãe liquefeita
e me navega
com fomes noturnas
e manhas eternas.

23.4.09

Senhora


Klimt

se me lenha nas coxas
fico esquecida e cristalina

um jeito de olaria
tem sua mão

e esculpindo

me faz cal nos olhos

como uma lenta sede
de agonia
e deveres cumpridos.




Tem conto de minha autoria na minha coluna da Diginet. Dá uma passadinha lá: http://colunas.digi.com.br/iara/

9.4.09

Um jeito




Antes dos trinta
pensei estaria pronta para as transcendências:
um corpo punhado ao meio
dois tantos de paciência
cachos de queixas penhorados na última briga de amor.

Mas o dia me traz comprimidos,
poeira até o nariz,
um suor carregado de tristeza
e poesia queimando sem conseguir nascer.

Outra seria se não desejasse apenas o natural?

25.3.09

A bela Adélia


Ela já me chega só com presença
(apertada a imensidão dos olhos)
não precisa de palavrinha escolhida
feijão espalhado no verso
fervurinhas de senhora e espanto.

Era menina lá na casa de vovó
na vez em que o cheiro de bolo transbordou a cozinha
e eu me amanheci toda
nem conhecia poesia
esse bicho que alimenta cheiroso
muito mais que amor.

Quando toco em sua divindade
reconheço que pecar tem lá suas belezas:
um furto bem temperado
toalhas molhadas
comida

Ajoelhada
(como só assim devemos nos dirigir aos deuses)
pronuncio seu nome três vezes
e o escrevo dentro do meu livro esquisito

Estrelas em pânico me espocam enternecidas
e o céu ganha um contorno roxo, amarelo e lindo.

16.3.09

é um pássaro


klimt
um nome secreto bem

no meio do meu corpo:


o que não traduz,

persiste


o que contradiz,

descansa.


meu corpo invadido

esquece valentias

na hora do batismo:


morna essa água do meu nome.

5.3.09

Herança




foto de sebastião salgado



há um sentimento indígena


no pouco passo que dou


no pouco tato que tenho





vou sentindo oca


a raiz de que me lenho.